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Atibaia ontem e hoje - Por Adriano Bedore

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Os primeiros povoadores de Atibaia

Publicado em 21/03/2019 1 comentário Comente!


Ao retratar a vida de Onofre Jorge Velho Filho (terceira pessoa biografada no projeto “Atibaia Ontem e Hoje” e o primeiro a desbravar o bairro Itapetinga em 1637/39) inevitavelmente terei de abordar um assunto polêmico: Mas quem de verdade fundou Atibaia?

É preciso dizer, porém, antes de abordar a polêmica questão sobre a fundação e os fundadores de nosso município, que refuto completamente a expressão fundador para designar aquele ou aqueles que mais contribuíram para o nascimento de uma cidade. Primeiro que eu não acredito ser possível atribuir, via de regra, a uma única figura o surgimento de uma comunidade, e segundo por considerar que o termo fundador não seja apropriado para designar a(as) principal(is) pessoa(s) que contribuiu(íram) para que isso de fato se dê.

Portanto, não apresentarei nenhum nome como fundador de Atibaia e, sim, alguns nomes que considero importantes para o seu surgimento e povoamento, nos moldes europeus de concepção de uma cidade.

Embora não muito adequado, já que Atibaia já era povoada por índios, antes de sua formação como um pequeno povoado, depois freguesia (bairro) e depois vila (cidade) eu usarei o termo: primeiros e ou principais povoadores para retratar as pessoas que julgo serem as primeiras ou principais no surgimento e povoamento de Atibaia.

Antes, porém, vou discorrer muito superficialmente (uma vez que abordarei esse tema dentro em breve), um pouco sobre a versão oficial da fundação de Atibaia. A partir do século XX alguns pesquisadores defenderam a tese de que Atibaia teria sido fundada pelo bandeirante Jerônimo de Camargo e tal versão criada aproximadamente há cem anos e que chegou como verdade até os dias de hoje sem que tivesse havido um estudo mais aprofundado sobre a matéria. Segundo essa versão, em 24/06/1665 o Padre Matheus Nunes de Siqueira rezou a primeira missa e deixou os índios guarulhos na fazenda do bandeirante Jerônimo de Camargo que teria iniciado, portanto, o povoamento da aldeia que se transformaria na cidade de Atibaia. Além do que, ainda segundo essa versão histórica, Jerônimo já havia erguido uma capela em louvor a São João Batista e que, quando o padre por aqui chegou, um núcleo urbano já havia sido formado pelo bandeirante. Portanto, oficialmente, a cidade foi fundada por Jerônimo de Camargo.

Ocorre que, já há um bom tempo, eu e outros estudiosos de nossa história discordamos frontalmente desta versão e a consideramos uma versão sem base história, criada muito provavelmente a partir de um contexto de longo período de comando político de nossa cidade pelos descendentes de Jerônimo de Camargo (iniciado com um hexa-neto de Jerônimo, José Alvim de Campos Bueno e seguido por seus descendentes, já com o sobrenome alterado para Alvim). Em outras palavras, na falta de uma narrativa sobre o início de nossa cidade, firmada com base em aprofundado levantamento, estudiosos da época criaram uma que compatibilizava fatos antigos questionáveis com um inquestionável poder político e econômico existente. Tal fato é muitíssimo natural e aconteceu em praticamente todas as histórias oficiais dos municípios, estados e até dos países e tal situação em nada diminui o papel e a importância dos personagens envolvidos. Muitos historiadores e estudiosos com o fim de compatibilizar possibilidades históricas com o contexto que se vivia à época em que foi escrito assim o fizeram tanto para facilitar o entendimento, como para dar certa coerência histórica com a sua realidade. Algo como trazer o passado para o presente, bem como levar o presente para o passado, isso é muito natural, a história da humanidade é assim e fatalmente sempre será e Atibaia não está fora deste contexto.

Embora a família Alvim (notadamente um deles, o Major Juvenal Alvim, o maior nome da cidade no século XX), seja merecedora dos mais diversos textos laudatórios, sinto-me obrigado a tentar resgatar a verdadeira história da &39;fundação&39; de Atibaia, convicto de que essa correção em nada reduzirá a enorme importância dos Alvim para história do município, fruto da incontroversa contribuição da família para o crescimento e desenvolvimento de Atibaia, já meritoriamente enaltecida em nome de bairros, ruas, praças e escolas. Portanto, ao procurar mostrar que a importância que se deu a figura de Jerônimo de Camargo nos primeiros anos da história de Atibaia não corresponde a verdade, eu não busco de forma alguma diminuir os feitos inquestionáveis que personagens como José Alvim, José Bim, Juvenal Alvim, Joviano Alvim e Zezico Alvim tiveram na história de Atibaia, apenas trago para reflexão que a inquestionável força política dos mesmos durante os anos de 1890 até 1960, aproximadamente, muito provavelmente possa ter influenciado narrativas que acabaram passando para história como oficiais. Sobre esse assunto específico eu tratarei em textos futuros. Pelas pesquisas que venho fazendo sobre a história de Atibaia, há anos, não vejo como permitir que esse erro permaneça por mais tempo, e acredito ter argumentos e provas documentais que iluminam uma nova versão e procurarei, inclusive, modificar tal equívoco institucionalmente.

Estou tratando deste polêmico tema dentro do projeto Atibaia Ontem e Hoje, portanto, vou me reportar a ele. As primeiras pessoas retratadas neste projeto foram Garcia Rodrigues Velho e seu irmão Manoel Garcia Velho, os primeiros a receber as sesmarias no território que compreende a cidade de Atibaia, isso em 1638. Por isso, a meu ver, os irmãos Garcia e Manoel, bem como seus outros irmãos Domingos e Miguel Velho, juntamente com Onofre Jorge Velho Filho e posteriormente o padre Matheus, sejam os primeiros povoadores de Atibaia, no período que compreende os anos de 1635 a 1655, aproximadamente.

Pois bem, os irmãos Garcia, Manoel, Domingos e Miguel Velho eram primos segundos (tinham um casal de bisavós em comum) de Onofre Jorge Velho Filho e do padre Matheus Nunes de Siqueira, esses eram primos-irmãos ou de primeiro grau pois Onofre Filho e o Padre Matheus tinham um casal de avós em comum, já que seus pais eram irmãos (Onofre Jorge Velho e Aleixo Jorge).

A concessão das primeiras sesmarias na região para além do rio Juqueri, alguns inventários e a genealogia são as principais bases de provas para, inevitavelmente, apresentar uma nova teoria sobre os primeiros e ou principais povoadores de Atibaia, expressões que substituo ao de fundador, bem como a uma nova tese sobre o período de nascimento de Atibaia, considerado entre 1655 a 1665, que eu creio ter se dado duas décadas antes, ou seja, entre 1635 a 1645, embora a tese de que Jerônimo de Camargo não teria nenhuma participação na &39;fundação&39; de Atibaia não seja nova e já fora defendida por outros ilustres historiadores ou pesquisadores, antes de mim.

Muito antes do ano oficial de fundação da cidade, 1665, a região de Atibaia começou a ser explorada e ocupada lentamente por pessoas não silvícolas, ou seja, os europeus ou seus filhos e netos, de sangue apenas europeu ou da mistura entre eles e os índios, também chamados de negros da terra.

A partir de 1610, a família Pires, rival da família Camargo (de Jerônimo) na disputa pelo comando político da então Vila de São Paulo, iniciou a exploração e ocupação das terras atibaianas. Na segunda metade da década de 1630 os irmãos Garcia e Manoel Velho ocupavam o bairro do Caioçara e, no mesmo período, Onofre Jorge Velho Filho iniciava a exploração e ocupação do bairro Itapetinga, os dois bairros mais antigos de Atibaia.

Garcia, Manoel, Domingos, Miguel, Onofre e o padre Matheus eram bisnetos dos portugueses Garcia Rodrigues e Isabel Velho, os quais eram pais entre outros de: 1) Mécia Rodrigues, avó de Garcia, Manoel, Domingos e Miguel; 2) Agostinha Rodrigues, avó de Onofre Filho e do padre Matheus e de 3) Maria Rodrigues, que foi casada com Salvador Pires, o velho, que juntamente com seu pai João, deixou Portugal na expedição liderada por Martim Afonso de Souza em 1532 para iniciar o povoamento do Brasil e são considerados os troncos da importante família Pires no Brasil. Todos da família Pires e ou partidários dos mesmos.

Salvador Pires, o moço, filho de Salvador Pires, o velho, foi casado com a mameluca Mécia Guassu Fernandes, descendente de João Ramalho e de importantes caciques, os quais tiveram 12 filhos, que na sua grande maioria eram membros do partido dos Pires, tais como: 1) João Pires, o protetor dos jesuítas, com grande descendência em Atibaia e, portanto, muito importante para os primórdios da história da cidade e 2) Maria Pires casada com Bartolomeu Bueno ou Bueno da Ribeira, o velho, sevilhano e considerado o tronco da família Bueno. A maioria dos descendentes do casal Bartolomeu e Maria Pires foram partidários dos Camargos, como um de seus filhos, Bartolomeu Bueno ou Bueno da Ribeira, o moço, que foi casado em 1634 com Mariana de Camargo, irmã de Marcelino e de Jerônimo de Camargo, dos quais falaremos noutra oportunidade. Portanto, os primeiros Camargos que pisaram em solo atibaiano foram muito provavelmente os Camargos descendentes também dos Pires, esses sim os primeiros a ocupar a nossa região. Certamente Jerônimo e principalmente Marcelino, vieram no rastro dos Camargos de sangue também Pires.

Convém observar rapidamente que a rivalidade entre as duas famílias se acirrou muito a partir de 1640, quando o Duque de Bragança restabeleceu o Trono Português, até então nas mãos dos espanhóis desde 1580, no que foi denominada União Ibérica. Antes deste importante ano de 1640, devido a escassez de brancos com origem européia na pequena vila de São Paulo, entre outros motivos, as duas famílias e seus aliados, é muito possível que tenham tido relações bem mais cordiais se comparada ao período pós o ano de 1640 e o casamento de Bartolomeu Bueno, o velho com Maria Pires em 1590, é uma prova disso.

A primeira sesmaria na região do além rio Juqueri foi concedida a Salvador Pires, o moço, filho de Salvador, o velho em 1610 e no ano de 1638 os irmãos Garcia e Manoel e posteriormente os demais irmãos obtiveram sesmarias que compreendiam o rio Ubuatibaia, ou seja, nosso rio Atibaia. No mesmo período, Onofre Jorge Velho Filho também recebeu sesmarias em solo atibaiano.

Desta maneira, a região de Atibaia, antes de ser ocupada pela família Camargo e seus aliados, de maioria com origem espanhola, foi explorada e ocupada pela família Pires e seus aliados, de maioria de origem portuguesa, os verdadeiros primeiros povoadores de Atibaia.

Entre alguns inventários, que também corroboram com a nossa tese, podemos citar o do sertanista Antônio Pedroso Barros de maio de 1652 em São Paulo que declarava: “os algodões que tenho aqui em Juqueri, etc (....) deixo as terras de Guativaí de que tenho cartas (...) tenho quinhentas braças de terras de Caioçara que me vendeu meu cunhado Salvador Pires, o velho”. Uma prova cabal de que os Pires estiveram antes que os Camargos em solo atibaiano.

Podemos citar outros inventários posteriores ao citado acima, tais como o de Inês da Costa, mulher de Onofre Jorge Velho Filho, falecida em São Paulo em 1667, com terras em Atibaia e outros relacionados à família Camargo, tal como o de Marcelino de Camargo em 1676 com terras no bairro Itapetinga e outro inventário menos antigo de Bartolomeu Bueno, o cacunda, em 1685, que era filho de Mariana de Camargo e de Bartolomeu Bueno ou Bueno da Ribeira, o moço, que também tinha terras no bairro Itapetinga. Cacunda, embora fosse filho de uma Camargo era neto de uma Pires – Maria Pires, filha de Salvador Pires, o moço. É muito provável que esse ramo da família Camargo tenha tido muitos problemas no auge do conflito entre as duas famílias em São Paulo, mas isto será objeto de outros textos.

Sem me aprofundar neste texto que já está bem longo, e como se trata de um assunto muito polêmico e minha tese, de certo modo, muda a versão oficial da fundação de Atibaia, encaminho-me para a conclusão deste texto introdutório afirmando com toda segurança que antes da chegada da família Camargo em terras atibaianas aqui estiveram os primos Garcia, Manoel, Domingos, Miguel, Onofre Filho e o padre Matheus Nunes da Siqueira, todos descendentes dos portugueses Garcia Rodrigues e Isabel Velho, membros da família Pires e ou aliados da mesma família, tanto que em 1665 o padre Matheus Nunes de Siqueira, partidário dos Pires, comunicou oficialmente que deixou os índios que estavam sob sua responsabilidade numa aldeia já existente, para, a partir dali, constituir um povoado, nos termos da lei de então.

É muito evidente que o padre Matheus Nunes de Siqueira, primo segundo dos irmãos Garcia, Manoel, Domingos e Miguel Velho e primo-irmão do Onofre Jorge Velho Filho tenha estado nas terras de sua família e aliados muitas outras vezes e, ao perceber a formação natural de uma aldeia após anos de permanência de sua família em solo atibaiano, lá deixou seus índios Guarulhos naquela aldeia em formação para que os mesmos ajudassem a formar um povoado, o que jamais faria se tais terras estivessem sob o domínio de seus adversários políticos - a família Camargo.

Além do que o padre Matheus jamais foi amigo de Jerônimo, como imaginou um historiador que bancou tal tese absurda (falarei sobre isto em profundidade noutro texto). Como sabemos, o padre deixou os índios Guarulhos ‘conquistados’ por ele no embrião de uma aldeia já existente em terras de sua família, que era inquestionavelmente aliada do Pires. Vejamos a comunicação feita pelo padre à Câmara de São Paulo no dia 03 de julho de 1665 (ao meu ver a data correta de &39;fundação&39; de Atibaia) :

“...para que formassem aldeia e estivessem debaixo da jurisdição dos oficiais do conselho com os mais, para servir a Sua Majestade...” os índios Guarulhos que o padre havia conquistado e deixado “... em povoado e termo desta vila na paragem chamada de Atubaia e que o reverendo padre entregava o dito gentio em nome de senhor do dito gentio, e se lhe formassem aldeia na mesma paragem donde estão...”.

Através desse comunicado, que, a meu ver, para Atibaia é o equivalente à carta de Pero Vaz de Caminha para o Brasil, fica claro que o padre Matheus deixou alguns índios sob sua responsabilidade ou propriedade num povoado já existente em terras de sua família e não em terras de adversários políticos. Bom lembrar que os Camargos expulsaram os jesuítas do colégio de São Paulo e a relação deles com os religiosos não era nada amistosa. Se eu concordasse com o termo fundador, o que já afirmei não concordar, e fosse obrigado a apontar um único nome como sendo fundador de Atibaia, eu não hesitaria em apontar o nome do padre Matheus como sendo o fundador da cidade, juntamente com o de seus primos e a família Pires que explorou e povoou a região de Atibaia muito antes da chegada dos Camargos.

Por fim, e para não deixar dúvidas de que trilho um caminho polêmico, mas bem-calçado, em 1676 é nomeado pelo governador da capitania de São Vicente para o posto de primeiro capitão da infantaria e ordenança do “dito bairro do rio Guatibaia, temo da vila de São Paulo”, Francisco de Godoi Moreira, que era nada mais nada menos do que um dos genros de João Pires, um dos líderes do partido Pires de São Paulo, numa demonstração clara de que nos seus primeiros anos a cidade era povoada, na sua maioria, por partidários dos Pires e, tal como ocorreu na vila de São Paulo, os Camargos para cá vieram e continuaram em solo atibaiano a célebre disputa de poder que durou mais cerca de cem anos e que resultou em assassinatos. Mas esse assunto será objeto de outro texto.

Atibaia ontem e hoje

Por Adriano Bedore

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