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Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

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Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

Se o cinema nacional morrer, quem terá puxado o gatilho?

Publicado em 05/07/2019 sem comentários Comente!


O cinema brasileiro vai morrer? Com toda pinta de que, como diria Nelson Sargento, “agoniza mais não morre” é fato de que a produção nacional está prestes a passar por um dos momentos mais difíceis das últimas décadas.

Tem que ter coragem para meter o dedo nesse vespeiro ideológico que se tornou qualquer discussão que em algum momento resvale na política e na polarização direitaesquerda que vivemos atualmente. Vou tentar simplificar aqui um conjunto de ideias não políticas mas que vão ora ou outra esbarrar em Lei Rouanet e na polêmica envolvendo os cortes de gastos públicos e a redução de incentivos fiscais dedicados ao cinema e as artes em geral. Dê um “google” e você vai ver opinião misturada com ódio e rancor por toda parte. A classe artística inclusive aderiu ao processo de incitar o caos ao invés da reflexão.

Vamos lá. Na minha opinião os únicos que puxam o gatilho em uma execução sumária do cinema nacional somos nós mesmos. É triste mas o cinema no Brasil não deslancha por causa do brasileiro. Vamos juntos aqui fazer uma “meia culpa”, não adianta dizer que tudo depende apenas do presidente e do governo quando percebemos que simplesmente a grande maioria do público nacional prefere assistir filmes estrangeiros, e muitos tem birra, pirraça e faz cara feia se a gente chama para assistir o último filme nacional em cartaz.

O circulo vicioso começa quando separamos em um primeiro momento a qualidade artística e o potencial de um filme como obra em si, do número de cifras que ele pode atrair para aqueles que produziram e puseram dinheiro “do bolso” para tirar o filme do papel.

Não adianta querer todo ano produzir pérolas cults que serão sucesso em Cannes se por aqui não conseguimos emplacar sequer um único sucesso de bilheteria por ano.

Falta para o cinema nacional público. E isso parte também de quem decide fazer um filme, do gênero escolhido, do casting, do orçamento... se fizer tudo direitinho o dinheiro volta. Pelo menos é isso que acontece no mundo todo, por que só aqui seria diferente?

De verdade senti vergonha em 2016, quando Kléber Mendonça Filho(um baita diretor!) decidiu em Cannes fazer protesto político e falar de “golpe no país” ao invés de aproveitar o momento para falar de ...vejamos... cinema! Para mostrar que o Brasil é ainda capaz de produzir filmes de alto nível técnico. Com isso o brasileiro mostrou uma grande deselegância na minha opinião trazendo a baila um tema exclusivo nosso, e ainda com polarização política. Não era como reclamar contra o preconceito racial, pedir igualdade de gênero, protestar contra os abusos sofridos pelas mulheres no cinema... Não, simplesmente entramos na festa, espalhamos a farofa, falamos de boca cheia, e ninguém lá entendeu nada. Triste. Não digo em ser pró ou contra, mas em fazer política no lugar errado. O filme “Aquarius” ficou em segundo plano e mesmo sendo excelente, quase ninguém assistiu. O diretor teve uma segunda chance esse ano com “Bacurau” e sem protestar foi premiado na França.

Acredito que o cinema nacional por sua história é muito grande para se apoiar em uma muleta de incentivo, dizendo que agora tudo vai acabar por que o “governo” cortou os gastos na área da cultura. Isso é terceirizar uma realidade triste... nosso cinema é um fracasso de bilheteria. Se não fosse isso haveria filas de investidores esperando para produzir obras nacionais e não seria necessário um centavo de dinheiro público.

“Bacurau” tem estreia prevista para dia 29 de agosto. E aí vamos assistir? Quanto você acha que será a bilheteria do filme?

Sem ser saudosista, você já assistiu um filme do “Mazzaropi”? Pois é  filmes simplórios, mas que eram um sucesso comercial. A nossa folclórica década de 70 com a “Pornochanchada”...era um horror? Sim! Mas era comercialmente viável.

Não estou dizendo aqui que cinema se resume a lucro, longe disso. Mas que ter um cinema forte, que permite o investimento em dramas e filmes alternativos é um passo que chega depois de uma longa caminhada. O brasileiro, principalmente os jovens, precisam ter de novo a vontade( e o hábito)de assistir filmes nacionais.

Basta olhar para o nosso top 5 de bilheterias nacionais. Vamos lá. Você imagina quem é o “Avatar” e o “Vingadores Ultimato” do cinema tupiniquim?

O filme “Nada a Perder” que conta a história do fundador da Igreja Universal, Edir Macedo e “Os Dez Mandamentos” uma produção da Record, (também um braço midiático da Igreja Universal) ficam com os dois primeiros lugares. Ou seja, sabemos que a religião foi o que motivou a bilheteria nesses dois casos. O top 5 segue com “Tropa de Elite 2”(2010), “Dona Flor e seus dois maridos”(1976) e “Minha Mãe é uma peça 2” (2016).

Tenho certeza que podemos melhorar isso aí...

Após tudo isso, digo também que não acho certo abandonar a cultura em um país em desenvolvimento onde boa parte da população sofre para conseguir o básico: educação, saúde, emprego... imagine ir ao cinema, ir ao teatro...O governo tem sim responsabilidade sobre o quanto de cultura é oferecido para a população, assim como deve priorizar um equilíbrio maior das necessidades básicas.

Temos um lampejo de esperança com os serviços de streaming chegando com tudo por aqui. Netflix e suas produções nacionais serão um assunto abordado em breve.

Para encerrar deixo aqui uma entrevista com Pablo Villaça, essa sim de forte teor político. Na minha opinião Pablo Villaça é o melhor crítico de cinema do país e suas palavras merecem ser ouvidas. Concordo com muita coisa, discordo de um montão de outros pontos. Mas respeito. Concorde ou discorde. Parta para o diálogo não para a agressão.

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