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Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

Arte e Cultura Por Armando Teixeira Junior

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Por quê é tão difícil falar mal de João Gilberto?

Publicado em 20/07/2019 sem comentários Comente!


Desde o dia derradeiro de sua partida, dia 06 de julho deste ano, que sigo lendo matérias e matérias que se enfileiram em homenagens ao músico João Gilberto. A maioria de gente graúda, grandes críticos musicais que afirmam que João Gilberto é um verdadeiro marco em nossa história musical.

Sim o homem por trás da versão definitiva de “Chega de Saudade” é um divisor de águas e apontado por muitos(ou por todos) como o verdadeiro pai da “Bossa Nova”.

Termo que ninguém sabe ao certo como surgiu. Wagner Homem e Luiz Roberto Oliveira, no livro “Tom Jobim, Histórias de Canções” contam duas possíveis origens do termo “Bossa Nova”.

Na primeira hipótese o termo foi criado quando um engraxate ao lustrar os sapatos do jornalista Sérgio Porto, assoviava uma canção, quando o jornalista perguntou que música era aquela, o rapaz respondeu: Um bossa Nova.

Outra versão seria quando  para um show no Grupo Universitário Hebraico em 1958, onde Silvia Telles iria se apresentar com outros músicos, entre eles Carlos Lyra e Roberto Menescal, no cartaz saiu “Silvia Telles e o grupo bossa nova”. Independente disso muitos afirmam que o estilo musical ganhou matéria quando o violão sincopado de João Gilberto e sua voz sussurrada cantaram “Chega de Saudade”. A partir desse momento, o Brasil que não tinha quase nenhuma relevância no cenário musical internacional pode dizer que havia criado um estilo próprio. O jornalista Nelson Motta no livro 101 Canções que tocaram o Brasil diz o seguinte ao citar a canção:

Foi uma overdose de escândalos. Um cantor que não tinha voz para os padrões da era do rádio, cantando de uma forma doce e feminina, no reinado dos cantores viris e grandiloquentes. Um ritmo esquisito que sambistas tradicionais chamaram pejorativamente de “violão gago”. Um poeta místico e dramático com a obra e respeitabilidade de Vinicius rimando beijinhos com peixinhos.”  Ou seja, algo que poderia ter se tornado uma catástrofe se tornou o maior marco de fato da nossa música.

Na Contracapa do LP Chega de Saudade(1959), Tom Jobim escreveu e popularizou o termo Bossa Nova: “João Gilberto é um baiano, “bossa nova” de vinte e seis anos. Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação nesse long playing foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser em suma sua espontaneidade.”

Esse trecho recorda provavelmente o exaustivo trabalho de estúdio onde a personalidade exigente e metódica de João Gilberto levou os companheiros a exaustão, e onde o próprio Tom Jobim teve de aceitar que arranjos seus fossem cortados da versão final do disco. Fico pensando se no trecho que Tom fala “sua natural agilidade” ele não queria dizer na verdade a “falta de agilidade” característica do cantar sussurrado e arrastado de João Gilberto.
Um pouco mais a frente no entanto Tom Jobim define algo que todos nós somos obrigados a concordar: “Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele.”

Digo tudo isso porque somos reféns desse gênio chamado João Gilberto, temos com ele uma dívida que não pode ser paga. Mesmo com Tom e Vinícius, foi dele a criação de um “ESTILO MUSICAL” novo, sim, não uma música, mas um estilo completo que pode ser adotado mundialmente, reproduzido e reinventado. Quando você procura no seu rádio, no seu computador ou seja lá onde for, estilos de música, está lá a “Bossa Nova”.

Por isso a gente esquece que o homem era um inferno. Sua personalidade era ímpar, excêntrica e metódica, se você procurar vai se deliciar com as histórias que ficaram registradas. Se ele ligava para um restaurante, gostava de ser atendido sempre pela mesma pessoa. Se sua calça não estivesse passada com o vinco em paralelo com a costura lateral ele podia cancelar o show, o mesmo acontecia se o ar condicionado fizesse ruído demais e atrapalhasse a acústica. Uma repórter tentou entrevistá-lo por anos a fio, se tornando “amiga de telefone” do mesmo, mas nunca conseguiu a entrevista, sua fobia social gerou “causos” muito engraçados. Mesmo as brigas recentes da família não chegaram a sequer riscar o curriculum do “gênio” João Gilberto.

Isso prova algo que acontece em qualquer escala, em qualquer lugar, com qualquer pessoa:  nunca conseguiremos falar mal de alguém se devemos muito à ele. Ignoramos os erros e silenciamos os defeitos na mesma proporção em que admiramos alguém. Por isso João Gilberto pode descansar como sempre quis, avesso as pessoas e a multidão, quieto e silencioso, ele será sempre “O Pai da Bossa Nova”.

 

 

 

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