Atibaia News
Cotação
RSS
Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

Arte e Cultura Por Armando Teixeira Junior

Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

MIND HUNTER e o fascínio sobre a mente de assassinos em série

Publicado em 29/08/2019 sem comentários Comente!

Divulgação

Divulgação

A proposta de “Mind Hunter” (Caçador de Mentes), série da “Netflix” que acaba de ter sua segunda temporada lançada neste mês de agosto, não é simples, apesar de parecer. O seriado é baseado nas experiências do agente do FBI John Edward Douglas, um dos que iniciaram o estudo da personalidade de assassinos em série, criaram um método para compreender a ação e a execução dos crimes, e forjaram a expressão “serial killer”.

A série se desenvolve acompanhando a rotina de três personagens centrais os agentes Holden Ford (que seria o alter ego de John) e Bill Tench (inspirado em outro agente real Robert Ressler) do FBI; e da psicóloga e criminalista Dra. Wendy Carr.

As duas temporadas acompanham os protagonistas no final da década de 70, entrevistando cara a cara alguns dos assassinos mais famosos da história dos E.U.A.

Acredite o impacto da série é algo desconcertante, sendo que muitas pessoas vão estranhar, outras vão torcer o nariz, mas uma vez que você for fisgado pela proposta, vai percebe estar diante de uma verdadeira obra de arte. Difícil até de classificar: não é terror, não é suspense (pelo menos não aquele de dar medo e sustos), não é ação com certeza! Mas de certa forma não seria incomum você perder o sono a noite após assistir alguns episódios como em filmes de horror, sentir ansiedade e angústia como nos melhores suspenses e ter picos de adrenalina como nos agitados filmes de ação.

A sinopse da série e os nomes de cada um dos assassinos e suas histórias você encontra com facilidade na internet, por isso queria falar aqui sobre a realização e a proposta das duas temporadas que possivelmente nunca seriam produzidas em mídias tradicionais, sendo, portanto, um dos pequenos milagres autorais proporcionados pelo novo segmento do “streaming”.

O roteiro é a chave da qualidade do produto. É o que garante nesse caso em particular a densidade quase palpável da tensão que transborda em cada um dos diálogos. Ahhh... os diálogos... são um deleite e conseguem na medida certa serem didáticos e técnicos, sem nunca menosprezar a inteligência do telespectador. Não raro eles são completados por um silêncio, um olhar, uma expressão... tudo muito realista, quase documental. Não existem frases de efeito desnecessárias ou chavões policiais caricatos utilizados como abreviação de conversa.

O elenco é outro ponto chave para que a série não desande. Não existem tiros, perseguições, correrias ou mesmo ação. Para prender o telespectador “Mind Hunter” usa e abusa de seus atores e não apenas do seu trio de protagonistas, mas também dos assassinos em série, caracterizados de forma extremamente verossímil. Fica uma impressão quase documental nas cenas de entrevistas de estarmos presenciando alguém que realmente matou outros seres humanos e não apenas um ator. O resultado é algo sombrio, seco e as vezes difícil de assistir. Psicologicamente você se questiona sobre como o ser humano é realmente capaz de cometer certas atrocidades que seriam possivelmente absurdas em uma ficção, se não fossem fatos reais. As personagens são construídas sem pressa, uma arquitetura artesanal que parece não se preocupar com alguns minutos a mais ou a menos, o que resulta em algo muito peculiar. O telespectador passa a conhecer e até mesmo antever algumas reações das personagens principais por acompanhar seu desenvolvimento.

Por fim a direção, que sempre tem início nos primeiros episódios com o também produtor da série David Fincher. O homem tem uma fascinação pelo lado obscuro do ser humano e sabe retratar com grande competência a temática, basta revisitar em sua filmografia  “Seven – Os Sete Pecados Capitais” e “Zodíaco” para ver sua obstinação por serial killers; sem contar “Clube da Luta”, outro filme dedicado ao lado sombrio e violento que pode estar contido em cada um de nós.

Cada episódio é dirigido com a clara preocupação de ser o mais simples possível em entregar para o público o máximo de realismo e sobriedade, desde a fotografia, aos enquadramentos, os tons amarelados e a procura constante da câmera pelos olhares e expressões faciais dos atores deixando em segundo plano qualquer tentativa mirabolante de inovação técnica.

Ponto positivo para quem gosta da série é que a produção em si não é complicada, nem deve ser tão cara. Com poucos efeitos especiais, quase nenhuma cena de ação, os gastos ficam mesmo para a ambientação (que está perfeita, diga-se de passagem), para os atores e roteiristas. Algo raro se olharmos para o cinema que atualmente vive de franquias de super-heróis, reboots, e continuações de filmes que necessitam de efeitos especiais o tempo todo. Nas séries não é tão diferente, basta olhar “Game of Thrones” e tantas outras que além dos efeitos especiais, necessitam de milhares de figurantes. Se você tem certa curiosidade sobre o assunto, estômago forte e psicológico bem resolvido, se aventure nas duas temporadas já disponíveis na Netflix.

Sem ainda a confirmação de uma terceira temporada, resta torcer para que um trabalho tão primoroso, não seja avaliado por número de visualizações, mas pela sua qualidade indiscutível.

Arte e Cultura

Por Armando Teixeira Junior

sem comentários

Deixe o seu comentário