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Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

Arte e Cultura Por Armando Teixeira Junior

Nunca teremos um “novo” Gugu Liberato

Publicado em 03/12/2019 sem comentários Comente!

Foto: G1.globo.com

Foto: G1.globo.com

Com a partida do apresentador Gugu Liberato está cada vez mais claro: muitos de nós estamos carentes de referências verdadeiras que sejam capazes de marcar nossa vida e significar algo.

Em tempos de velocidade e luta desenfreada contra o relógio, não conseguimos gostar de algo(ou alguém) por muito tempo, implodimos vínculos antes mesmo deles serem criados.

Isso é preocupante porque faz com que cada “ídolo” do passado seja como uma espécie em extinção. E quando um deles morre, o luto é coletivo. Todos sentimos de alguma forma aquela perda como se fosse um pouquinho nossa.

O que dói com a morte de Gugu Liberato não é apenas a situação trágica do acidente e da coisa toda, mas é sentir que perdemos com ele uma parte da nossa televisão que não volta mais, e que fica ali um vazio: Quem será o novo Gugu Liberato?

Não creio que teremos.

A nova geração, em especial aquela pós anos 2000, é um fracasso em criar sucessores duradouros de qualquer coisa que seja. Criamos hits semanais, cantores sazonais de uma ou duas estações, uns ou outros duram alguns parcos anos, mas não existe uma longevidade que seja capaz de produzir um novo Gugu.

Nossa poesia nunca mais teve um Vinícius de Moraes. Nossa música ainda não viu nascer um novo Tom Jobim. Não temos uma intérprete como Elis Regina ou como Tim Maia.Não surgiu um maluco como Raul Seixas. Não temos mais uma viola como de Tião Carreiro. Não temos mais um Ayrton Senna para chamar de nosso.

Não é (só) saudosismo. Mas uma constatação: ciclos estão morrendo com seus autores.

Por isso... nossa crise existencial aumenta na proporção que percebemos que tudo aquilo que perdemos não está sendo reposto. Ao invés disto adotamos a cultura do descartável também nas nossas referências nas mais diversas áreas da cultura. Não existe renovação. Não existem sucessores. Existem os “dinossauros”, um elo perdido e a geração atual pouco interessada em formar novas referências.

Quem será o sucessor de Chico Buarque, Caetano e Gil?

Quem substituirá William Bonner no Jornal Nacional?

Quem será o dono das tardes de domingo no lugar do Faustão?

Perguntas sem respostas. Não vejo ninguém sendo preparado para esses papéis hercúleos.

Não digo que vivemos um mundo melhor ou pior, mas um misto de nostalgia e melancolia é inevitável para quem viveu dias mais analógicos e menos digitais. A nova geração pouco tem dessa nossa “sofrência” de quem tem no RG uma data dos anos 80 para trás.

Para concluir, Gugu era sim um visionário e um talento nato para a televisão de sua época. Sua cara de bom moço e seu carisma meio ingênuo nos fazia acreditar que aquele monte de mulher seminua nas tardes de domingo era ok. Todos nos permitíamos ser mais crianças, menos maliciosos, e assistir em família certas coisas que seriam no mínimo constrangedoras sob a batuta de outro maestro.

Sua partida deixa em nós a tristeza de que perdemos alguém que compartilhou conosco bons momentos... afinal eram tardes de domingo... e muitas de nossas boas lembranças acontecem por ali. Gugu será lembrado não apenas pela história que construiu, mas pela falta que faz em uma TV cada dia mais sisuda e moralista.

 

 

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