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Arte e Cultura - Por Armando Teixeira Junior

Arte e Cultura Por Armando Teixeira Junior

10 Discos Nacionais para MARATONAR na Quarentena

Publicado em 10/04/2020 sem comentários Comente!


É comum encontrarmos dicas de séries para “maratonar”, ou seja, assistir um episódio atrás do outro, diversas temporadas, sem parar. Pensei aqui em algo diferente, com mais tempo sobrando em casa por causa da quarentena forçada, por que não “maratonar” um pouco de música?  Digo isso porquê hoje em dia perdemos o hábito de ouvir um álbum completo de um artista, de cabo a rabo, as melhores e as piores daquele “disco” ou “cd”, até essas expressões parecem cair em desuso com nossa forma virtual de consumir músicas que cada vez mais depende menos de um recipiente de armazenamento físico. Por isso use e abuse do seu streaming favorito nessa quarentena. A seguir 10 sugestões de discos para ouvir enquanto tentamos desanuviar um pouco, da terrível situação do COVID 19.

Não é um top 10, longe disso. Tentei aqui fazer uma seleção eclética em ritmos e sons, de alguns dos álbuns que mais gosto de escutar do começo ao fim, sugestões para descobrir, ou ouvir de novo. Se tudo der certo, semana que vêm, trago sugestões da música internacional.

1. Ednardo, Amelinha e Belchior - Pessoal do Ceará (2002)

Uma releitura de clássicos desses três grandes músicos e compositores que representam de forma soberba o talento do nordeste brasileiro. Versões belíssimas de clássicos como: “Mucuripe”, “Como Nossos Pais” e “A Palo Seco”, todos gravados por Belchior, ganham destaque com os vocais misturados de Ednardo e Amelinha.

Podemos aqui também desfrutar de pequenas pérolas menos conhecidas como “Pavão Mysterioso”, “Pastoril”, “Lagoa de Aluá”. Indispensável também a versão de “Enquanto engoma a calça” de Clemério e Ednardo, que tem um dos versos mais absolutamente poéticos do cancioneiro popular: “Porque cantar, parece com não morrer, é igual a não se esquecer, que a vida é que têm razão”.

2. Pimenteira – Pedro Miranda (2009)

Na rodinha de samba Pedro Miranda é o “cara do pandeiro”, com sua camisa quase sempre estampada e um existir carioca que vai dos trejeitos a fala. Colecionando participações e parcerias com gente graúda da nata do samba, começou a ganhar destaque em uma geração de sambistas descolados que surgiram lá pelos anos 2000.

O talento do rapaz gerou um disco delicioso de ouvir do início ao final. Arrancou no lançamento deste disco generosos aplausos de gente como Caetano Veloso. “Hello my girl”, “Meio Tom”, “Caso Encerrado” e “Coluna Social” são alguns dos destaques desse disco divertido e alegre, para curtir com uma cerveja(em casa) na quarenta.

3. Fôlego – Filipe Catto (2011)

Filipe Catto é um caso sério de talento natural que transcende a pessoa, não cabe dentro de si e extravasa de forma extravagante. Um conjunto de hipérboles seria necessária para descrever esse “Fôlego”. Quem escolheu esse repertório merece um prêmio, porque um disco menor e menos incisivo não seria suficiente para quebrar uma impressão de que Catto era na verdade um “cover” de Ney Matogrosso.

Fica claro aqui que para além da voz quase feminina que brota afinada de sua garganta, passando pelo rebolado e vestimenta da sua performance, o que vemos é um artista com assinatura própria, apesar da semelhança com Ney. Perca seu fôlego com “Saga”, “Adoração”, Redoma. “Rima Rica/Frase Feita” de Ney Lisbos, “Garçon” de Reginaldo Rossi, “Ave de Prata” de Zé Ramalho e “2 perdidos” de Arnaldo Antunes são escolhas certeiras do repertório. Grande disco!

4. Vander Lee – Ao Vivo (2003)

Infelizmente o ano de 2016 foi carrasco, ao levar ainda jovem esse talentoso compositor, um infarto, logo com ele que tinha os atalhos para o coração “não fisiológico”, não para a máquina bomba de sangue, mas para o simbólico que usamos sempre que tentamos descrever o centro das emoções de todo ser humano.

Essa apresentação ao vivo é uma breve síntese de suas composições mais belas como “Alma Nua”, “Contra o tempo” e “Onde Deus possa me ouvir”. Momentos leves arrancam risos da plateia como o divertido “Sambado” dedicado ao carro que sempre quebra. Sua “assinatura” vem mesmo na execução de “Esperando Aviões”, já regravada tantas vezes, mas que parece mais sincera na voz de seu autor.

5. Charlie Brown Jr. - Acústico MTV (2003)

Gostando ou não, o Charlie Brown Jr. seja talvez a última grande banda de rock nacional que vimos surgir, atingir o ápice e infelizmente acabar. Na quarentena todos nos sentimos um pouco revoltados com a situação, seja do caos social, político, e claro de saúde pública que vivemos, além da situação pessoal de cada um, que pode envolver falta de dinheiro, emprego e problemas muito sérios.

Ao invés de chutar o cachorro e brigar com a criança, escutar Charlie Brown Jr. é uma catarse. Um misto de frases lindas, quase poéticas, com palavrões e gírias eram a receita do vocalista e compositor Chorão; a alma do grupo. Esse registro acústico, é simbólico porque está bem no meio da carreira da banda, trouxe canções inéditas como “Vícios e Virtudes” e “Eu não uso Sapato”, essa última com a impagável reclamação “Eu não sei fazer poesia, Mas que se foda, Eu odeio gente chique eu não uso sapato, Mas que se foda...”

Cheio de defeitos, briguento e ranzinza Chorão era também extremamente sensível e vulnerável, suas canções ainda hoje falam com a gente quando nos sentimos humanos em estado de revolta.

6. Sá, Rodrix e Guarabyra – Outra Vez na Estrada (2001)

Nos Estados Unidos a expressão “country rock” soa estilosa e chique, já no Brasil a expressão “roque rural” parece que não “pegou” como deveria. Fato é que o trio Sá, Rodrix e Guarbyra são para nós o que Crosby, Still and Nash são para os yankees.

O trio se reuniu para apresentação no Rock in Rio e a surpresa foi esse registro “ao vivo” de um álbum repleto de nostalgia, arranjos primorosos e claro  os hits que fizeram sucesso na trajetória do trio, da dupla formada posteriormente por apenas “Sá e Guarabyra” além de sucessos gravados por outros cantores. O resultado é soberbo.”O Pó da Estrada”, “Roque Santeiro”, “Casa no Campo”, “Caçador de Mim”, “Dona”... e assim vão enfileirando sucesso atrás de sucesso.

Surpresa é a inédita “Jesus numa moto” com a fantástica sobreposição de imagens da frase: “Vou meter um Marlon Brando nas ideias e sair por aí...”.

7. Fagner Ao Vivo – Vol I e II (2000)

Registro de um show feito para mais de 40 mil pessoas, essa coletânea de sucessos aconteceu por ocasião dos 50 anos de vida do cantor. Seus hits são considerados muitas vezes bregas, talvez pela forma peculiar que Fagner impregna em suas performances a voz anasalada, quase fanha. A grande verdade é que a maioria do povo não consegue enxergar o artista multifacetado que existe por trás dos hits chicletescos que tocavam nas rádios e colavam nas mentes.

Fagner sabe cantar, compor e sobretudo escolher repertórios e parcerias. Muito culto busca inspirações em poetas, poetizas, escritores, músicos de dentro e de fora do país. Recomendo aqui uma audição em looping, sem preconceitos. “Canteiros”, “Revelação”, “Jura Secreta”, “Deslizes”, “Fanatismo”, não raro suas melhores composições falavam de amor, amor que nunca domou o cantor que chegou recentemente aos 70 anos sem se casar, e descobriu há pouco tempo um filho e dois netos de um relacionamento fugidio da década de 70. “Borbulhas de Amor” está lá também, para quem ri da música, a letra foi adaptada da original em espanhol por ninguém menos que Ferreira Gullar, o poeta.

Em tempo: Em entrevista muito animada facilmente encontrada no “youtube” Ferreira Gullar fala a uma repórter que pergunta sobre a música:

Você sabe o que é esse peixe né?

A moça: Um parati (tipo de peixe)?

O poeta: Não! É a piroca do cara!

8 - Música para Acampamentos – Legião Urbana (1992)

Uma cena que marcou minha juventude é ir na loja de cds, no caso a “Real Discos” , e ver na prateleira esse cd duplo caro demais na época. Bom pelo menos para minha realidade de adolescente era realmente caro o preço escrito a bic naquela etiqueta branquinha escrita na inconfundível capa verde água.

Essa indicação é nostálgica porque não se trata do melhor cd da banda, nem de um peculiar por qualquer motivo, nem tem nele os hits mais conhecidos, mas foi por acaso um dos que mais escutei quando tive enfim acesso na era do mp3. Tipo uma vingança por nunca ter conseguido por a mão no original. “Faroeste Caboclo” ao vivo é demais, e Renato Russo foi gênio, assim até suas piores canções ainda são boas. Estranho porque o “Legião Urbana” era o avesso do rock, parecia uma banda de mauricinhos arrumadinhos com crise existencial, sem nenhum talento para uma briga. Mas deu certo.

9 - Saudades de Tião Carreiro – Os Amigos Cantam seus Sucessos (1996)

No Brasil não podemos ignorar a música sertaneja. E Tião Carreiro é o Pelé da coisa toda.

Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel, Christian e Ralph, Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, Gian e Giovanni, Sérgio Reis, Cézar e Paulinho, Rick e Renner, Goiano e Paranaense, Bruno e Marrone... nem dá para acreditar que toda essa galera se reuniu para um tributo.

Todas, simplesmente todas as músicas são conhecidas por quem teve na vida um mínimo de contato com o universo sertanejo. Os duetos entre o vozeirão original de Tião Carreiro e dos convidados ficou muito bem mixado. Para ouvir na varanda com cheiro de café fresco.

10. Nó na Orelha – Criolo (2011)

Quando os Racionais Mcs lançaram “Sobrevivendo no inferno” a música nacional tremeu e finalmente passou a olhar o rap de forma diferente. Em 2011, Criolo criou outra pequena metamorfose no cenário ao oferecer um estilo mais palatável, mas não menos criativo, um rap cheio de nuances, de observações do cotidiano, de sons, mixagens, ritmos e claro rimas poderosas. Assim “Não existe amor em SP” virou um retrato poderoso da capital paulista.

O resultado final das canções de “Nó na Orelha” é instigante, curioso, sensacional. O rap deve muito ao Racionais Mcs, que por sua temática de crítica social forte e violenta muitas vezes tem sua música marginalizada e rotulada. Mano Brown e companhia são artistas de primeira grandeza, compositores com talento nato, mas a sensibilidade de Criolo cai como uma luva para tempos difíceis onde escolhemos não ignorar a crueldade do mundo, mas lutar com ideias e não com armas.

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