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Lobisomem de Joanópolis e o Turismo do Imaginário

Publicado em 07/01/2020 Editoria: Região 3 comentários Comente! Imprimir


Fotos: Arquivo Pessoal Valter Casalho

Fotos: Arquivo Pessoal Valter Casalho

A ideia do homem que se transforma em lobo em noites de Lua cheia, continua a atrair a atenção e a curiosidade das pessoas. A tradição e a história apontam diversas versões da lenda do lobisomem no Brasil.

Armando Teixeira Junior

Bem perto de nós, a cidade de Joanópolis atrai todos os anos muitos turistas, que procuram o município fascinados pelas belezas naturais e muitas vezes curiosos pelo título de “capital do Lobisomem”.

 


Joanópolis fundada em 24/06/1878 hoje Estância Turística 
Em 09/4/1984, o jornalista Eduardo Mattos publica matéria sobre o lobisomem de Joanópolis no jornal “O Estado de São Paulo”, sugerindo esta cidade como a Capital do Lobisomem.

Teria a cidade, que possui menos de 15 mil habitantes, alguma ligação mística com a folclórica figura do homem que se transforma em lobo na lua cheia? Será possível que entre seus habitantes exista, realmente algum lobisomem?

A história que poderia ser de terror, tornou-se na verdade um grande atrativo turístico, e a figura do lobisomem hoje é vista com simpatia por todos. O historiador Valter Cassalho, presidente da ACL (Associação de Criadores de Lobisomens) reuniu durante anos informações sobre as lendas e relatos da figura do lobisomem em suas diversas variantes desde sua origem europeia, até suas características nacionais e regionais e em seu “dossiê” não hesita em dizer que o lobisomem de Joanópolis não tem nada de perigoso.

“Temido no passado, o lobisomem joanopolense passou por nova metamorfose, deixou de ser amaldiçoado para dar sorte, de mau passou a brejeiro e de temido passou a ser amigo. Hoje em dia, o lobisomem pode ser considerado o carro chefe na divulgação do turismo da cidade, aproveitando o folclore e mostrando as belezas naturais que o município encerra.” Afirma um dos textos de Valter que integra o dossiê da A.C.L.

Para entender exatamente a fama da cidade de Joanópolis é preciso conhecer dois fatos importantes:  a publicação do livro “Lobisomem: assombração e realidade”, de1983, da folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima, baseado em pesquisas realizadas no município e pela curiosa publicidade da rede de fast food Mac Donald´s que em 1998, lançou um comercial com pessoas da cidade de Joanópolis falando sobre o tema.

Depois disso a cidade passou a mergulhar na proposta do “turismo do Imaginário” que seria uma mescla de curiosidade e aventura atrás de lendas e histórias sobre seres e regiões fantásticas. Como visitar a Romênia para conhecer a Transilvânia, “Casa do Conde Drácula”, ou mesmo a cidade de Varginha (MG) por causa do E.T. Que teria visitado o Brasil em 1996.

No dossiê da A.C.L. o turismo do imaginário, é descrito como: “uma desculpa para viajar e relembrar a infância, reviver antigas fantasias, mas também buscar a aventura de estar numa cidade e poder contar depois que esteve lá, na terra assombrada por um determinado ser, mas também, em conhecer e desfrutar das belezas naturais que estes locais encerram. É o novo, o inusitado, o diferente, talvez seja isso que procuram aqueles que se aventuram por estas trilhas.”.

Se nesse mês de janeiro, aproveitando as férias das crianças, você decidir conhecer alguns pontos turísticos de Joanópolis, como a belíssima “Cachoeira dos Pretos”, certamente encontrará no caminho referências ao simpático lobisomem local que ganhou até uma pelúcia em forma de filhote/bebê.


CACHOEIRA DOS PRETOS com seus 154 metros de queda é um dos principais pontos turísticos da região, com infraestrutura como estacionamento, restaurantes e área para banhos.

“A proposta do lobisomem é esta, divulgar o turismo, valorizar o folclore, relembrar os bons tempos da infância, contar um bom “causo” e se envolver nos mistérios e clarões da lua cheia.” Conclui Valter em outro trecho de seu dossiê.

“O Lobisomem não é um ser que mata e aterroriza”

O historiador Valter Cassalho não apenas disponibilizou para nós seu “Dossiê do lobisomem” para que pudéssemos retirar dali informações preciosas sobre a cultura, história e folclore da cidade de Joanópolis, como também aceitou responder algumas perguntas em uma breve entrevista ao Portal Atibaia News. Falou sobre a “comida do lobisomem”, os “causos” mais conhecidos, o “turismo do imaginário” e sobre como a figura dos filmes de Hollywood nada tem a ver com o lobisomem nacional, inofensivo e brejeiro.

Atibaia News: Existe ou existiu algum registro histórico da presença de lobisomens em Joanópolis? Por que Joanópolis entre tantas outras cidades se tornou referência no assunto?

Todas as histórias ou como chamamos no interior “CAUSOS” são relatos de pessoas antigas e atuais que disseram ter tido contato com o bicho. Sempre relatando como um imenso cachorro de olhos vermelhos, muito peludo e a parte da frente mais baixa que a traseira.


Nesta foto histórica a professora MARIA DO ROSARIO DE SOUZA TAVARES DE LIMA (falecida em 2011) autora do livro ASSOMBRAÇÃO E REALIDADE com o bebê lobisomem no colo e o vice-presidente da Associação ANDRÉ COLLINS e VALTER CASSALHO.

Desde fins do século XIX temos relatos da aparição do lobisomem em Joanópolis, sendo que até um dos fundadores da cidade era considerado lobisomem. A grande folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima, autora do livro LOBISOMEM ASSOMBRAÇÃO E REALIDADE datado de 1983 conta isso em seu livro, sendo ela neta de Anselmo Caparica um dos fundadores de Joanópolis. Maria do Rosário traça a trajetória do lobisomem desde a Grécia antiga até os dias atuais e sua adaptação em Joanópolis. Desde então houve muitas publicações na mídia a respeito e acabaram chamando a cidade de A CAPITAL DO LOBISOMEM.


Na foto está o mascote da Associação dos Criadores do Lobisomem - o bebê lobisomem (autoria de André Collins) e também o livro: Lobisomem Assombração e Realidade, da autora Maria do Rosário.

Atibaia News: A "maldição" do sétimo filho surgiu aqui no Brasil ou é parte da lenda original vinda da Europa? Qual a versão da lenda é a mais comum no Brasil?

No Brasil conta-se que o sétimo filho homem de uma sequência tem o fadário (maldição) de virar lobisomem. No Brasil tanto quanto na Europa tirar sangue ou ferir um lobisomem ou ainda ser mordido por ele, também herda o fadário. O “causo” mais contado é de um casal que saiu numa noite de lua cheia para ir à casa de um compadre e no meio do caminho o marido alega uma dor de barriga e manda a esposa com um bebê de colo continuar pela estrada enquanto ele se alivia, de repente surge um imenso cachorro preto de olhos vermelhos e corre atrás dela e ela sobe numa porteira e tenta salvar o filho que estava envolto numa baeta (uma lã vermelha) e dá uns pulos e abocanha parte da baeta e ela rezando consegue afugentar ele. Ela corre a casa do compadre e logo o marido chega e ela conta o acontecido. No outro dia conversando com o marido sobre o susto percebe que entre os dentes do marido tinha pedaços da baeta e ela descobre que o marido era lobisomem! Porém ela fica calada e conta para a mãe, e esta prepara uma forma de quebrar o fadário (maldição). Na outra noite de lua cheia elas seguem o marido e veem ele na encruzilhada a tirar a roupa e se transformar, elas pegam as roupas dele queimam e colocam um par de roupas novas para ele vestir quando voltar, segundo os relatos antigos isso quebra o fadário do lobisomem.

Atibaia News: No Turismo do Imaginário como Joanópolis tem aproveitado a figura do Lobisomem? O que é a "Comida do Lobisomem" que já virou um prato típico local?

O TURISMO DO IMAGINÁRIO vem incentivar a partir do reaproveitamento do folclore artesanato e culinária que se relacionam com o mito. Assim várias pessoas fazem souvenires do lobisomem, pratos, galinhadas, bonecos, canecas, cachaça. O vice-presidente da nossa Associação, o publicitário André Collis, tem desenvolvido diversos souvenires, desenhos, logotipos, etc a respeito e trabalhando nesta questão do lobisomem enquanto marketing e comércio local. Temos ainda um rapaz que se veste de lobisomem e fica na Cachoeira dos Pretos com uma performance espetacular. 


 Na Cachoeira dos Pretos é muito fácil encontrar o bicho e se tiver coragem uma foto com ele.

No caminho da Cachoeira dos Pretos, tem a PARADA DO QUEIJO onde tem vários bonecos para fotos, souvenires e até uma paçoca de amendoim chamada de viagra do lobisomem. A comida do lobisomem é servida em dias de festas e na barraca do Tetê, é um bom tutu de feijão, arroz com açafrão, com torresmos, linguiças, etc um prato com muita “sustância” para dar força ao lobisomem, afinal a maldição é correr sete cidades em uma noite.

Atibaia News: Como surgiu a ideia de uma associação de "criadores de lobisomens"? Como é realizado esse trabalho de preservação da história e do folclore?

Em 1998 uma rede de alimentos (Mac Donalds) fez um comercial que mostrava dois velhinhos de Joanópolis falando sobre o lobisomem e novamente acabou acendendo a chama das discussões do mito, nesta época, vários amigos reunidos em um barzinho da cidade resolveram fundar a ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE LOBISOMENS e fui eleito presidente. A proposta da Associação é divulgar e preservar o mito, em especial a tradição e a oralidade, os contadores de “causos” e suas assombrações. Por isso incentivamos tudo que se relaciona ao mito e seus desdobramentos. Nosso lobisomem é um sucesso na mídia.

Atibaia News:  No passado pessoas realmente acreditavam na lenda do lobisomem? E hoje tornou se algo realmente mais simbólico e lúdico?

Eu acho que tanto ontem como hoje as pessoas ainda acreditam em lobisomens, basta andar nas noites de lua cheia por nossas estradas escuras e ouvir algum barulho, uivo ou qualquer coisa, que duvido que alguém fique para se certificar se é um cachorro, uma capivara ou um lobisomem. O imaginário e o medo, cria seus mitos, assombrações e rende bons “causos”.

Atibaia News: Quais filmes, livros e sites você recomenda para quem deseja conhecer melhor o mito do lobisomem?

Existem muitos filmes e livros, porém precisamos tomar cuidado com o lobisomem hollywoodiano, onde o lobisomem é um ser que mata, sangra, aterroriza. No nosso folclore o lobisomem é uma assombração, algo que assusta e corre a noite toda, ataca galinheiros, e rodeia as casas onde há crianças não batizadas. No Brasil precisamos pensar o lobisomem como tendo uma função, desde no passado a obrigar os pais a batizarem seus filhos, ou tocar o terror nas crianças para irem logo para dentro de casa.

Em Joanópolis o lobisomem é bem amistoso e quando na forma humana sempre é alguém que por mais diferente que seja apenas carrega um fadário, ninguém está disposto a matá-lo com balas de prata. Quanto a livros o da Maria do Rosário trata bem o assunto de forma localizada, mas sempre partindo do folclore, não da versão europeia ou norte americana onde tudo que é diferente e é visto como inimigo.

Curiosidade:

Segundo o livro “Lobisomem: Assombração ou realidade” o fadário(maldição) acontecia sob algumas condições: Ser o primeiro ou o último de uma série de sete filhos, o sétimo filho de um casal que só tinha fêmeas; filho de incesto, no qual se incluem as comadres; permanecer durante dez anos sem confissão ou comunhão ou sem molhar os dedos em água benta.

A canção “Serafim e seus filhos” gravada por Sérgio Reis, Zezé de Camargo e Luciano, entre outros apresenta outra versão um juramento e a morte em noite de lua cheia.

Colaborou com a matéria: Prof. VALTER CASSALHO  - Formado em História pela Faculdade de Ciências e Letras da Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista em 1994.  Durante os módulos científicos da Pós Graduação  (lato-sensu) na mesma faculdade desenvolveu a Pesquisa intitulada PICANDO FUMO, um estudo sobre a formação e costumes caipiras na região bragantina. Publicado em 2000 no Volume 94, nº 4/2000 da revista CULTURA VOZES.  CRONISTA de diversos jornais da região, com assuntos sobre folclore e cultura. Foi Presidente do Conselho Municipal de Turismo da Estância Turística de Joanópolis-SP, mandato 2009/2011 e 2012/2013. Recebeu a Honraria da Comenda GOVERNADOR PEDRO DE TOLEDO, do Conselho Supremo da Sociedade Veteranos de 32, por relevantes serviços prestados ao culto da Epopéia de 1932 e pesquisas sobre o tema. Membro da COMISSÃO PAULISTA DE FOLCLORE e da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FOLCLORE.  Atual Presidente da ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE LOBISOMENS - a qual tem por objetivo a catalogação e divulgação do mito do lobisomem de Joanópolis, Vice-presidente da CASA DO ARTESÃO em Joanópolis. Membro do NÚCLEO REGIONAL DE FOLCLORE PÉ DA SERRA, região de Atibaia.

Autor dos livros HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA. São Paulo: 2004. Ed. Vida & Consciência, pesquisas sobre as assombrações na região onde reside em SÃO GONÇALO DO AMARANTE – UM SANTO VIOLEIRO OU UM VIOLEIRO SANTO publicado em 2009 – Proac – Governo do Estado de S. Paulo, autor de artigos em Revistas e Jornais. Atualmente desenvolve um novo livro JOÃO BELISÁRIO - O LAMPIÃO DO SUL DE MINAS.

 

 

 

› FONTE: Atibaia News (portalatibaianews.com.br)


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