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Após aposentadoria, Lilian Vogel receberá título de Cidadã Honorária de Atibaia

Publicado em 08/07/2020 Editoria: Arte e Cultura sem comentários Comente! Imprimir


Fotos: Arquivo Pessoal de Lilian Voguel

Fotos: Arquivo Pessoal de Lilian Voguel

Com extenso currículo de serviço público e atuação na área da cultura, Lilian foi entrevistada pelo Portal Atibaia News e falou um pouco sobre sua trajetória e planos para o futuro.

Armando Teixeira Junior

A Câmara Municipal de Atibaia aprovou na última terça-feira, dia 07, por unanimidade a concessão do título de Cidadã Honorária a servidora pública recém aposentada, Lilian Vogel.

Foram 28 anos de atuação na Secretaria da Cultura em diversas funções, dentre elas a curadoria do Museu Municipal João Batista Conti.


"Lilian, só temos a agradecer pela sua dedicação à Cultura de nossa cidade. Não é um momento de despedida, pois temos a certeza de que Atibaia pode continuar contando com você. Um abraço em nome de toda a cidade!", disse o prefeito Saulo em sua página pessoal no Facebook.

Formada em Artes Plásticas e Música, com Pós-Graduação em Gestão Pública e História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, Lilian, que também é escritora,  ainda acumula os títulos de Coordenadora do Núcleo de Folclore Pé da Serra, Presidente da Comissão Paulista de Folclore e Membro da Diretoria da Comissão Nacional de Folclore. Em Atibaia, realiza também um trabalho de preservação da cultura e tradição das Congadas, onde é considerada “madrinha” pelos grupos de Congos.


Folia de Reis na casa de Lilian Voguel, com as crianças da congada

Segundo a vereadora Roberta Barsoti, que propôs a homenagem: “Defender uma causa tão nobre e acreditar na preservação da história da cidade são realizações de pessoas de alma artística e sensível como a Lilian, que, mesmo por muitas vezes incompreendida, seguiu seu coração em sua missão pessoal de acreditar nas pessoas e dar voz e vez a elas, dentro de suas crenças e tradições. Olhar e aplaudir a beleza das congadas nas apresentações é prazeroso para todos, mas se não tiver alguém nos bastidores que cobra, participa, arregaça as mangas, pede, reclama e valoriza, a tradição secular se esvai e vira somente lembrança. Parabéns por acreditar e resistir, Lilian! A Cultura Popular e Atibaia te agradecem!"

O Portal Atibaia News entrevistou Lilian Vogel e falou sobre a aposentadoria após 28 anos de serviço público, os planos e projetos para o futuro e sobre a emoção de receber uma homenagem após tantos anos de dedicação.

Foram 28 anos como servidora pública municipal, mas muito mais que isso, dedicados a cultura e ao folclore da nossa região. Você poderia fazer um breve resumo falando sobre quais foram suas principais atividades neste período?

Foram 28 anos e 3 meses sempre trabalhando na Secretaria de Cultura. No começo, a Cultura era junto com a Secretaria de Educação. Fui Monitora Artística, Supervisora da Casa da Cultura Jandira Massoni, Coordenadora de Programas Culturais, Diretora de Cultura , Chefe do Setor de Folclore e Cultura Popular, Analista de Gestão e Gerente de Folclore e Cultura Popular,  alguns cargos efetivos e outros de livre nomeação. E, também por 10 anos fui a responsável pelo Museu Municipal João Batista Conti. Também participei da construção do Conselho de Patrimônio Cultural de Atibaia e fui presidente por 5 anos.


Festa do ciclo natalino

Um dos seus trabalhos mais importantes foi a luta nos últimos anos para preservar e manter as Congadas no município.  Fale quais foram os momentos mais desafiadores.

Trabalhar com a Cultura Popular e as manifestações folclóricas sempre foram um grande desafio, principalmente por falta de conhecimento destas áreas pelos gestores públicos, pela comunidade e por representantes da Igreja Católica. Tivemos grandes problemas de falta de incentivo, recursos e investimentos.


Cortejo das bandeiras - cavalhada, trajada com vestimentas antigas para homenagear os antigos festeiros

Mas, sempre estivemos unidos e tentando não deixar que as tradições se perdessem. Acredito que ainda temos muito a lutar por esta causa.

O Museu Municipal João Batista Conti é outra parte importante de sua trajetória, fale sobre seu trabalho cuidando do acervo da rica história de nosso município.

Meu trabalho no Museu Municipal João Batista Conti foi no sentido de preservação de nosso rico acervo e de divulgação do mesmo. Fiz vários cursos na área da museologia, conservação de acervo, expografia, preservação de documentação, educativo e tudo que se relaciona ao tema. Conseguimos uma vistoria técnica e uma assessoria do Sisem – Sistema Estadual de Museus, onde foi detectado que precisaríamos da instalação  de uma reserva técnica, nova catalogação do acervo e revisão no Regimento Interno.


Congresso brasileiro de folclore em Maceió 2019

Também conseguimos cadastrar o Museu no Cadastro Estadual de Museus, ferramenta essencial para participação de editais, projetos e novas assessorias. Outro ganho para o prédio foi a parceria com o ITEC, Instituto Técnico da Construção, que, através de um Decreto está investindo no prédio, com o pagamento do Projeto de Restauro por especialista na área, conserto de algumas portas e janelas, instalação da reserva técnica e outras obras que estão previstas, como a instalação de elevador e projeto de sanitários acessíveis. A obra externa do prédio deverá ser feita com os recursos municipais.

Nos últimos anos o Brasil passa por uma crise muito séria relacionada ao incentivo a cultura. Nesses quase trinta anos de atuação, você já passou por momentos onde a falta de verbas, incentivo ou apoio acabou por impedir a realização de um projeto? Quais as soluções para não deixar a cultura perder espaço no dia-a-dia das pessoas?

Acho que o Brasil está ainda longe de ser um país que acredita que a Cultura é um investimento e não uma simples recreação. Os recursos sempre foram poucos e muitos projetos não foram realizados. Um deles, foi a sede para os grupos de congadas. A Prefeitura já tem  o terreno e a planta para construção de um prédio que deverá atender a dois grupos. Faltam os recursos para a obra


Festa de folclore em Santo Antônio da alegria com mestres de grupos

Fale um pouco sobre seu trabalho como “folclorista”. Qual a importância de preservar a cultura popular presente nos “causos”, “lendas” e personagens do folclore nacional?

Na faculdade de Artes tive muito contato com as manifestações folclóricas e sempre me interessei por este tema. Quando mudei para Atibaia, fui conhecer a festa do Ciclo Natalino e anos depois, estava trabalhando na Secretaria de Educação e Cultura e com os mesmos grupos.


Entrevista na rádio menina moça de olímpia no festival de folclore de 2019. Programa do padre Edinalvo
 

Há 20 anos ingressei na Comissão Paulista de Folclore e venho atuando no setor, sempre fazendo cursos e pesquisas nesta área. Publiquei 6 livros e dois dvds sobre estas manifestações de nossa região. Hoje sou a Presidente da Comissão Paulista de Folclore e faço parte da diretoria da Comissão Nacional de Folclore. Também, desde 2019 ocupo a cadeira de Patrimônio Imaterial da Cultura, no Condephaat.

Atibaia tem também uma história muito rica ligada a religiosidade cristã. Você também atua na preservação desse patrimônio?

Atibaia é uma cidade onde a religiosidade está muito presente e a maioria das manifestações folclóricas estão ligadas a religião católica. Dentro do Conselho de Patrimônio, fizemos o Tombamento das Igrejas Matriz e Rosário, além da capela da Fazenda Pararanga, onde há uma obra de Victor Brecheret. Desde 2017 realizo um trabalho na Diocese de Bragança Paulista, a convite do Bispo Don Sergio e do Padre  Boareto, reitor do Seminário de Campinas, com aulas sobre a cultura popular e religiosa de nossa região.

Estamos vivendo tempos difíceis de isolamento social por causa do COVID-19, fica uma sensação agridoce de se aposentar em um período onde não é possível realizar quase nenhuma atividade cultural, comemoração ou mesmo celebrar essa conquista de tantos anos de dedicação?

Solicitei minha aposentadoria no dia 3 de abril de 2019, mas com a crise no INSS, so foi concedida um ano depois. Já estávamos na pandemia. E este tempo em casa, com a família me ajudou a tomar a decisão de sair do serviço público. Foram muitos anos sem sábados, domingos, feriados, longe da família. Agora acho que preciso deste tempo para estar com eles. Não acho que realizei tudo que gostaria, faltou muita coisa.

Como é a sensação da “aposentadoria” após anos de tão intensa atividade? Pretende descansar ou existem projetos pessoais esperando para serem realizados?

Quem me conhece sabe que não vou parar. Tenho vários projetos em andamento: novos livros e pesquisas, as comissões de folclore e patrimônio que faço parte e também vamos trabalhar mais na ATIFÉ – Associação de Apoio ao Folclore e Tradições de Atibaia, fundada recentemente e que vai fazer muito por nossas tradições. Também sou formada Guia de Turismo e pretendo aumentar meus grupos de viagem que já faço com meu marido há mais de 10 anos.

Também tenho o compromisso assumido quando ganhei o título de Comendadora  Guerreira dos Congos de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, concedido pela Prefeitura de Atibaia.

A homenagem com o título de “Cidadã Honorária”, proposta pela Câmara Municipal, é um reconhecimento ao seu trabalho e uma demonstração de gratidão do município. Como você se sente recebendo essa homenagem?

Esta proposta de receber o título de Cidadã Honorária de Atibaia me pegou de surpresa. Não esperava esta homenagem, porque não fiz nada além de trabalhar nas causas que sempre acreditei. Sempre disse que as pessoas que fazem parte dos grupos é que são especiais, eu só tentei colocar mais luz no brilho natural que eles já tem. Só tentei fazer com que eles fossem reconhecidos como patrimônio cultural da cidade e lutassem por seus direitos. A homenagem não é para mim, mas para eles. Talvez isto os torne mais visíveis para a comunidade Atibaiana e para os gestores municipais. A “causa” sempre fará parte da minha vida!!!

 

 

› FONTE: Atibaia News (portalatibaianews.com.br)


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